Andrea Zimermann, produtora do Lago Oeste no Distrito Federal
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Cooperativas são importantes para mulheres do campo, mas poucas têm poder de decisão

Tripla jornada, preconceito e lacunas na formação diminuem envolvimento das mulheres nos postos de liderança

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A experiência de mulheres trabalhadoras do campo mostra que é por meio do cooperativismo ou por associativismo que elas conseguem acessar recursos para produzir, serviços, oportunidades de emprego e de representação em conselhos com voz para decidir.

O potencial existente em cooperativas para a autonomia das mulheres rurais é destacado pela Comissão da ONU sobre a Situação da Mulher e pela Aliança Cooperativa Internacional (ACI). “A riqueza gerada pelas cooperativas permanece na comunidade, criando postos de trabalho e atividades sustentáveis. As cooperativas são baseadas em valores que representam um modelo adequado para as mulheres construírem seu próprio futuro”, declarou Rodrigo Gouveia, diretor de Políticas da ACI.

No entanto, o papel das mulheres rurais na proteção e gerenciamento de recursos naturais, no desenvolvimento econômico da comunidade local e na participação mais efetiva nas cooperativas esbarra na dificuldade de conciliar as diferentes atividades que estão culturalmente sob responsabilidade feminina.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em todas as faixas etárias, de 14 a 60 anos, as mulheres de todas as regiões do país do campo e da cidade se dedicam mais diariamente aos afazeres domésticos do que os homens. Em média, as brasileiras trabalham mais de 11 horas em atividades relacionadas aos cuidados de outras pessoas ou da casa, enquanto que os homens dedicam menos da metade desse tempo (5,1 horas).

Levantamento no Paraná

A sobrecarga de trabalho é um dos problemas citados pelas mulheres rurais como empecilho para participar de forma mais efetiva do trabalho das cooperativas, principalmente em cargos de liderança. O resultado foi encontrado em levantamento feito durante o 1º Encontro de Mulheres Rurais do Mercosul, realizado no final do ano passado no Paraná para debater o tema do cooperativismo e a questão de gênero.

O encontro reuniu em Medianeira (PR) mais de mil mulheres, das quais 173 foram entrevistadas por pesquisadores da Universidade da Integração Latino Americana (Unila), com apoio da Reunião Especializada sobre Agricultura Familiar no Mercosul (Reaf) e da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes).


Norma Siqueira, produtora de frutas no Paranoá, Distrito Federal (Foto: Aquivo MDA)

Quase 80% das entrevistadas tinha mais de 40 anos e eram aposentadas. A pesquisa revela que, na percepção das mulheres, as tarefas domésticas e a falta de formação são fatores determinantes na participação. Elas também mencionam a falta de motivação, insegurança e autoafirmação.

De acordo com o levantamento, quase metade (48%) das mulheres tem uma carga horária de mais de 10 horas de trabalho doméstico, sendo que 13% delas disseram ter 15 horas de trabalho doméstico. Em sua maioria (72%) as mulheres dedicam de uma a cincor horas para participar dos espaços de gestão da cooperativa.

“Como que mulheres com uma carga de trabalho tão grande em casa, cuidando da família e dos filhos, têm condição de estar na cooperativa? Isso revelou que as políticas precisam ser direcionadas para questões que são muito mais complexas do que aquelas que estão evidenciadas”, comentou Maíra Lima Figueira, assessora da Unicafes.

A maioria das entrevistadas atuam em cooperativas ligadas a empreendimentos de poupança e crédito, seguidas de estabelecimentos de agropecuária, social, trabalho e consumo. Elas também participam de forma significativa em cooperativas de catadores.

A principal atividade exercida por elas nas cooperativas é na área de crédito e financiamento. As associações em que trabalham comercializam, principalmente, soja, milho, trigo, feijão e o sorgo, seguido de carne de gado, caprinos, ovinos, suínos, mel, arroz, batata e mandioca. Apenas 4% das mulheres relataram que as cooperativas em que trabalhavam forneciam produtos para merenda escolar.

Mais de 70% delas disseram que dedicam entre uma e cinco horas para participar dos espaços de gestão da cooperativa. Cerca de 35% relataram que participam de alguma forma de comissão dentro da cooperativa, a maioria delas tem mais de 55 anos, e 20% atuam na direção da cooperativa e apenas 9% estão na diretoria financeira das associações.

As comissões com maior participação feminina tratam de terceira idade, informação, ajuda geral, clube de mães, gênero, juventude, gerenciamento, produção, comércio, financiamento, entre outros. Os pesquisadores constataram que a maioria das mulheres tem contato com a cooperativa por meio do marido.


Mulheres acumulam atividades fora do lar com cuidados de outras pessoas e da casa (Foto: Arquivo MDA)

De modo geral, a maior parte afirma que opina nas decisões da cooperativa, mas que sua opinião não é levada em conta, além de serem questionadas sobre sua formação. Em 35% das respostas, elas destacaram a falta de apoio, oportunidade, formação e informação como fatores que afetam essa participação.

O levantamento apontou a necessidade de atividades motivacionais, que valorizem a autoestima e que promovam a igualdade de direitos nas cooperativas. Outra sugestão é promover eventos que envolvem a participação das famílias, dos homens e jovens para discutir questões de gênero, saúde da mulher e paridade no trabalho.

O questionário foi semelhante ao realizado pela Confederação Uruguaia de Entidades Cooperativas (Cudecoop). O país vizinho tem cerca de 3 milhões de habitantes e 1,2 milhão de pessoas ligadas às cooperativas.

No Uruguai, apenas 16% das titulares da direção das classes cooperativas são mulheres. Aparece como central na dificuldade para participação feminina nos espaços de decisão a imposição cultural às mulheres das tarefas de cuidado dos filhos e de outros dependentes, além do trabalho doméstico.

O levantamento no país vizinho cita ainda que mais da metade da carga global de trabalho do país (que envolve atividades remuneradas e não remuneradas) é assumida por mulheres, que se dedicam mais que o dobro de horas ao trabalho não remunerado em comparação com os homens.

Esses dados foram apresentados no lançamento da 4ª edição da Campanha Mulheres Rurais, Mulheres com Direitos, realizado terça-feira (16), na Secretaria de Agricultura Familiar e Cooperativismo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

O objetivo das entidades é estender esse tipo de levantamento a todas as regiões do Brasil.  A expectativa é que os resultados contribuam para promover ações mais efetivas de estímulo à participação das mulheres no dia a dia das cooperativas.

A consultora da Secretaria de Agricultura Familiar e da campanha, Geise Mascarenhas, destaca que quantificar o tempo dedicado pelas mulheres ao trabalho não remunerado e o que isso representa no orçamento doméstico, pode contribuir avaliar essa contribuição no desenvolvimento da região.“Senão tivermos informação, deixamos na invisibilidade uma participação muito importante que as mulheres têm para a economia dos países”, comentou Geise.

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